O setor florestal argentino enfrenta uma contradição histórica: possui vantagens biológicas únicas no planeta, mas está amarrado pela falta de investimentos industriais, pela informalidade na informação comercial e trabalhista e pela incerteza jurídica. Este foi o eixo central da apresentação do agrônomo Daniel Maradei, diretor da consultoria Maradei y Asoc., durante o seminário híbrido organizado pela Comissão de Agricultura e Alimentação do Centro Argentino de Engenheiros (CAI) em Buenos Aires, que contou com o apoio institucional do Conselho Profissional de Engenharia Agronômica (CPIA) e a participação do engenheiro Luis María Mestres, secretário de Desenvolvimento Florestal-Industrial.
Durante sua apresentação, Maradei definiu a Argentina como uma mina de ouro biológico para o mercado internacional, baseada na altíssima produtividade da terra, na disponibilidade de água e em um desenvolvimento genético avançado que permite taxas de crescimento impossíveis de igualar às potências florestais tradicionais do hemisfério norte. O superpoder da NEA Os dados médios de crescimento florestal apresentados pelo consultor expõem uma vantagem natural imbatível. Enquanto os países escandinavos – dominadores históricos do mercado de madeira e papel – enfrentam invernos extremos e ciclos de corte entre 60 e 80 anos, o Nordeste Argentino (NEA) opera em velocidades recordes. A nível global, a medição de metros cúbicos por hectare por ano (m3/ha.ano) expõe as seguintes diferenças: Finlândia: 5 m3/ha. anoSuécia: 6-7 m3/ha. anoSul dos EUA: 11 m3/ha. anoChile: 21 m3/ha. anoUruguai: 26 m3/ha. anoBrasil: 41 m3/ha. anoNEA Argentina (Corrientes e Misiones): 46 m3/ha. AnoEm Misiones ou Corrientes, um pinheiro ou eucalipto atinge tamanho comercial em apenas 12 ou 15 anos. Produzimos quase nove vezes mais rápido que a Finlândia, gráficou Maradei. No entanto, o analista disparou uma dura metáfora sobre o estado da atividade: a natureza na Argentina se move na velocidade de uma Fórmula 1, mas a indústria e a economia local se movem na velocidade de uma carroça. O mapa da massa florestal: entre o nativo e o implantado Ao abordar o inventário de recursos, Maradei alertou para a falta de estatísticas oficiais atualizadas e precisas. Em relação às florestas nativas, as estimativas variam substancialmente: em 2005, o antigo Ministério do Meio Ambiente estimava cerca de 31,4 milhões de hectares, número que subiu para 53,6 milhões em 2007 após a implementação da Lei Florestal (nº 26.331). Em escala regional, o Parque Chaqueño lidera com 62 milhões de hectares, seguido pelo ecossistema Monte (47 milhões), o Espinal (33 milhões), a floresta andina patagônica (6 milhões), a Selva Tucumán-Boliviana (5,4 milhões) e a Selva Misionera, que ultrapassa um milhão e meio de hectares com espécies de alto valor madeireiro como guatambú, palo rosa, peteribí e cedro. Hoje a atividade produtiva com a mata nativa está reduzida a uma escala menor, concentrada na exportação de carvão vegetal, tanino e extrato de quebracho, detalhou. Do lado das florestas plantadas (cultivadas), o panorama Os dados estatísticos da Direcção Nacional de Desenvolvimento Industrial Florestal são mais sólidos: o país tem 1.364.998 hectares, dos quais 30% correspondem a florestas maduras com mais de 18 anos. O pódio provincial das culturas florestais é liderado por Corrientes, com 492.000 hectares (70% pinus e 30% eucalipto), consolidando-se como o local mais atraente e amigável para atrair novos investimentos de base florestal. Em segundo lugar está Misiones, com mais de 400 mil hectares (80% pinus); uma província com um pólo industrial muito consolidado mas onde as actuais restrições ambientais tornam complexa a projecção de macroprojectos. O terceiro lugar do pódio é ocupado por Entre Ríos, destacada pelas suas bacias de eucaliptos e salicáceas, em direção ao Delta. O paradoxo regional: o espelho do Uruguai, do Chile e do Brasil O fato mais crítico da conferência surgiu ao comparar a disponibilidade de recursos na Argentina com o desempenho comercial de seus vizinhos do Cone Sul. A Argentina tem 1,3 milhão de hectares plantados, superando os 1,1 milhão de hectares que o Uruguai possui. Apesar de ter mais árvores, o impacto económico é o oposto: a Argentina exporta apenas entre 380 e 550 milhões de dólares anuais, enquanto o Uruguai gera entre 2.500 e 2.800 milhões de dólares. A explicação para esta lacuna está nas megafábricas de celulose que se instalaram em território uruguaio e que processam quase 5 milhões de toneladas anualmente. «O Uruguai industrializou sua floresta e exporta biomassa de alto valor; A Argentina ficou abaixo de um milhão de toneladas de celulose e exporta toras não processadas ou produtos de baixo valor agregado”, afirmou Maradei. A defasagem é ainda maior em relação aos líderes regionais: o Chile, com 2,1 milhões de hectares, diversificou sua matriz em painéis e madeira serrada, faturando até 6 bilhões de dólares em exportações. Enquanto isso, o gigante Brasil opera em outra escala com 10 milhões de hectares plantados e vendas externas de até 15 bilhões de dólares anuais. Anualmente são cortados 35.603 hectares (cerca de 350 m3 por hectare), o que equivale ao consumo de uma única fábrica moderna de celulose no Brasil. Isso demonstra a enorme oferta de excedentes de madeira sólida e o forte déficit de indústrias capazes de dinamizar o cluster produtivo, destacou.











